Homens Provisórios

Não é sempre que conseguimos saber os motivos pelos quais a gente se envolve com certas pessoas ao longo da vida. Minha experiência com o sexo masculino sempre foi um tanto quanto engraçada. Peguei-me pensando nisso durante um show que assistia no Rio de Janeiro. De repente comecei a lembrar de todos os namorados que já tive na vida e dar muita gargalhada sozinha no meio de gente desconhecida. O mais estranho é que sempre houve um mesmo elemento que os conectava de alguma maneira.

O primeiro de meus homens foi Claúdio. Um cara gatinho, intelectual, super sensível, usava óculos, estudava geografia, tocava violão, gostava de todo tipo de música popular que transmitisse a cultura de raiz e também dos Beatles. Com ele aprendi muita coisa do que sei hoje, desde conhecer movimentos musicais que não fazia idéia que existiam, até me engrenar na luta política dos movimentos sociais, estudar os clássicos da literatura socialista e comunista e imaginar uma revolução no Brasil por meio das Ligas Camponesas.

Com ele também aprendi a fumar maconha e digamos que adquiri consciência sexual, além de ter aprendido também como superar a dor de uma desilusão amorosa pela primeira vez.

Até aqui tudo bem, a questão principal é que Claúdio era de família rica, morava numa casa enorme com quatro carros na garagem. Nunca tinha conseguido tirar carteira de motorista, mesmo os pais lhe pagando todas as taxas e as aulas necessárias para isso. Claúdio, quando saía de férias, ia para acampamentos de comunidades de agricultores sem terra. Fumava cigarro, era doente dos rins e curtia tomar uma cerveja com os amigos. Seu sonho era conseguir um dia abdicar do conforto da família e se construir sozinho.

Quando terminamos foi uma fase horrível para mim. Meu pai estava nas últimas, precisava me mudar da casa onde morava e encontrar outro local para viver, e quase tomei pau em economia na faculdade. Cláudio acabou namorando uma garota muito mais feia do que eu e nunca mais soube dele.

Por muito menos tempo fiquei com Tiago. Um capoeirista de olhos meigos, negro, pai, também gostava de uma erva, fazia diagramação como ninguém, trabalhava também com edição de vídeo, mas era fraco para rabos de saia. Esse sabia bem como levar uma menina-mulher à loucura, mas a falta de foco na vida o fez se perder.

Em seguida conheci Cristiano, um cara apaixonado por cinema e pelo mar. Ingressou na universidade algumas vezes, mas não conseguiu concluir nenhum curso. Tinha brilho nos olhos em tudo que fazia, foi longe para um cara com a mesma origem humilde que a sua e se metia a músico algumas vezes. Para mim seu grande problema era não descobrir como poderia ganhar dinheiro e ser feliz ao mesmo tempo.

Trabalhamos juntos ao longo de alguns anos, época em que eu entrei muito pelos caminhos do audiovisual e da produção cultural. As festas na produtora/casa eram das melhores e nunca acabavam. Cristiano era dono de uma cadelinha que se chamava Nesta em homenagem ao Bob Marley, o que já dá para perceber suas preferências. Acredito que a cachorrinha era a extensão de seu dono, meio louca e bagunçada, cabelo desgrenhado e amante de diversão.

Tudo que vivi até então se modificou profundamente quando resolvi dar uma chance para William e comecei a namorá-lo após dois anos de amizade e muitas investidas da parte dele. William fugia completamente do modelo seguido até então. Logo que o conheci, resolvi que seu corte de cabelo era muito antiquado para o Brasil, ele seria massacrado no Rio de Janeiro com aquele cabelo arrumadinho e partido ao meio. Ui!

William não fumava maconha, não era engajado em luta política, não conhecia de arte ou de cinema, não era um bom amante, nunca havia transgredido a lei do uso da camisinha, nunca tinha descascado uma batata na vida real ou na imaginária, não me acompanhava na cerveja de final de semana, não sabia dançar samba ou forró, era machista pra caralho e se importava muito com a opinião alheia.
Em resumo, William era o cara mais errado de todos que já namorei e julguei amar, apesar de aparentar ser um bom moço aos olhos da família. Inacreditavelmente foi o homem que menos me mereceu nessa vida e o único com quem eu cogitei me casar! DEUS!! Onde estava com a minha cabeça??
Comigo ele aprendeu fazer sexo, falar português, conheceu muito da cultura brasileira e aprendeu a amar o seu próprio país e ser um pouco menos aculturado. Com ele aprendi que ser um pouco alienado faz bem às vezes, com ele vi todos os filmes do Harry Poter e de Crepúsculo, com ele aprendi que dinheiro pode ser bom e não é pecado. Com ele vi de fato que a religião bestializa as pessoas. Com ele aprendi tolerar as diferenças.
Meu segundo T na história surge para ficar pouco tempo e ir embora no meio de um carnaval. Foi bom enquanto durou. Túlio era músico, sonhava em ser famoso e reconhecido. Não era carioca, mas era garoto de Ipanema. Morava bem, mas não pagava todas suas contas. Por esse motivo sofria a pressão dos pais para dar certo na vida e vivia um dilema constante: afinal, porque vir morar no Rio e seguir carreira de músico se o que me dá dinheiro é ser professor de inglês? Precisava mesmo sair de minha cidade para isso?
Amante de uma boa leitura de autoajuda, Túlio possuía certo tom professoral ao falar, algo que podia ser muito irritante às vezes. Também tinha o hábito de exagerar no bom humor e achava que suas piadas eram as mais engraçadas do mundo. Os sorrisos falsos nessa hora valeram pelas boas fantasias sexuais realizadas como a vez do sexo na pia do banheiro na volta da praia. Mas como todo carnaval tem seu fim, com Túlio não foi diferente. Vida que segue.
E como chegar aos 30 e poucos mantendo coerência na vida bandida? Essa é a pergunta de um milhão!! Minha única resposta é: superando-se, ora bolas! A superação veio com Raúl, o cara mais incrível de todos e o mais complicado também. Lindo de morrer, inteligente, profissional das artes e da filosofia, admirado pela vida, obcecado pela saúde, dizia que todo mundo gosta de um veneno. Era um pouco hipocondríaco e arrogante. Tinha tudo para ser o playboy mais babaca na zona sul carioca, mas aprendeu com a depressão que ninguém se levanta das rasteiras da vida imune. Ele tinha suas marcas. Sem dúvida foi o namoro mais difícil e tumultuado que já tive, mas onde eu mais pude aprender sobre mim mesma. É curioso como as muitas brigas nos permitiram abrir o diálogo para as profundezas da alma. Raúl tinha a gargalhada mais alta e gostosa que já tinha ouvido em um homem, eu sempre gostei de ouvi-lo rir, mas quase fiquei surda algumas vezes. Deitar a cabeça no seu peito era o melhor dos sonhos. E ele odiava que eu o abraçasse pelas costas enquanto fazia café. Namorar Raúl nem sempre foi divertido, mas amadurecer sempre é dolorido.

Foi então que eu percebi uma coisa: havia algo em comum em todas as histórias anteriores. Todos esses homens de minha vida queriam uma coisa e precisavam fazer outra. Conflitos de uma geração? Imã da criatura que vos fala pra maluco?? Vai saber…

Dessa história toda só nunca peguei o Otto, de quem era o show que eu via na ocasião das lembranças.

Mas um dia, quem sabe, né?

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4 comentários sobre “Homens Provisórios

  1. brialvim disse:

    Muito bom, amiga!
    Desculpe a falta de inspiração poética, mas, parafraseando a propaganda da Natura, “Cada relação é um presente”. Ou seja, a gente sempre tem o que aprender e ganhar, nada é por acaso.

    Que bom que você soube tirar proveito e está numa melhor agora, mais segura e autoconfiante, acima de tudo.

    Ah, e com certeza esses caras também aprenderam muito com vc.
    😉

    Bjo.

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