Anunciação



Ao som dos sinos das igrejas de todo o mundo, ela pensou:
            -Se Deus é brasileiro, se o carnaval já passou e o papa é argentino, concluo logo que já paira sobre nós o ano de 2013. Sim. Começou!
 
Enquanto pensava isso, os comentaristas de TV em Roma ganhavam o pão de cada dia, mas dentro dela existia certa angústia do novo, vontade de ser, de criar, de acontecer. Vontade de descobrir tudo diferente, vontade de brilhar como os fogos de artifício daquele réveillon atrasado. Quase ninguém sabia, mas ela tinha conseguido a façanha de se atrasar para a grande e triunfal chegada do ano novo.  Isso parecia ter se passado há muito, mas fora outro dia mesmo.  Ali, ouvindo o badalar de sinos ela se sentia tão pequena e tão confusa..Parecia que enquanto ia ficando mais velha a cada ano, os sonhos foram se indo no dia a dia. Ela sentia vergonha de dizer que havia abandonado muitas coisas, congelado um ser dentro de si mesma e dormido com a preguiça. Queria acordar!
 
Acordar significava fazer tudo de novo, tudo de distinto, tudo e mais tudo: tirar um título, escrever mais, permitir e tolerar mais, aprender a amar, a estar com ela mesma sem culpa, buscar novos caminhos, estudar de novo. Falar menos, beber menos, fumar menos, não ter medo do fracasso, enfrentar o fracasso, ser solidária com o fracasso e amiga do sucesso, ser boa amiga de si mesma, aprender economizar, ter mais ânimo para gostar daquilo que ela fazia, fazer com mais amor aquilo que ela não gostava de fazer. Ela queria ser feliz ali, no meio da rua, ela queria ser feliz a cada segundo.
 
A lista em sua mente seguia sem parar: sorrir mais, reclamar menos, serenar à noite. Deixar o sono vir tranquilo. Acabar logo de uma vez com tudo aquilo que não gostava,  que não lhe fazia bem. Pedalar! Sentir o vento na cara! Ler, ler para crescer, ler para se informar, ler para dormir, ler para trabalhar melhor. Relaxar. Deixar o gozo vir, não ter pressa de amar. Não sufocar. Simplesmente ir… Fazer planos. Trabalhar pelos planos. Focar. Ter objetivos. Escolher boas escolhas. Não projetar no outro. Amar o outro. Ajudar e amar. Respirar. Alongar-se!
 
Eram tantas as coisas que ela queria para aquele ano que acabara de começar que ela quase se esqueceu de olhar para trás e dar um último adeus para ele. Foi uma pequena paquera seguida de um flerte virtual, várias cervejas, uma noite mal dormida, um sexo meia boca e um ‘tchau’ estranho.. Então ela pensou:
 
 
 
 
            – Já fui tarde! Tão estúpida que sou, como pude querer um café da manhã e um romance? Como pude querer um almoço e um cafuné? Um erro. Não vale a pena querer.
Seguiu pela rua pensando naquilo que outro dia lhe ocorreu, de que talvez o grande problema é que a gente sempre quer algo mais. O ser humano jamais vai abrir mão do amor, pensava.
 Há coisas que jamais saberemos, outras teremos alguma vaga ideia tempos depois. Ela ainda estava em busca do seu eu, de suas atitudes e o que precisava fazer da sua vida, do saturno que ainda não havia retornado.
 
            – Apesar de frio,  comi!
 
 
 
 
 
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8 comentários sobre “Anunciação

  1. Anônimo disse:

    Pelo menos me comeu, triste constatação. E triste comemoração, mas é comemoração: quanta brochura neste mundo, meu Deus? Me pergunto, o problema sou eu? – mas olho ao redor e constato que não pode ser. Vivemos tempos de homens broxas, cansados de tanto comer? Cansados? Mortos? Fiquemos nós com nossas metas religiosas, nós com nós mesmas, porque quem espera se cansa, e parece que não há amores suficientes para tantas mulheres competentes. Subamos nossas montanhas. beijo!

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  2. Anônimo disse:

    ah, era a ironia da situação mesmo, embora valha por tirar algo positivo apesar de tudo.
    Muitas vezes vivo a mesma situação de imaginar que adormeci, de não saber como tantos sonhos fora abandonados, esquecidos, procrastinados.

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  3. Ana Leticia disse:

    E jamais abriremos mão do amor, de querer café da manhã e romance! Junto de quem valha a pena de estar em nossa companhia, junto com nossos medos, defeitos, dúvidas, preocupações, vitalidade, paixão, entusiasmo, verborragia!
    Bjos
    Ana Leticia

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  4. Anônimo disse:

    Muito bem escrito e expressado… Gostei da sinceridade das coisas simples. Acontecimentos de todas as vidas. Mas,vou te falar uma coisa… só quem é homem sabe o quão desagradável é “brochar”. Mas, acontece, INFELIZMENTE. Convém não “jogar fora” já na 1ª falha. (rsrsrsrsrs)

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