A limpinha

O senhor Américo Prates era um caixeiro viajante respeitado em todo o Arraial das Formigas e região. Nos vilarejos que passava sempre havia encomendas para entregar a todos, fosse homem, mulher, velho ou jovem. Seus produtos tinham qualidade e contavam também com a simpatia extra do vendedor. As moças, em especial, esperavam o senhor Américo com certa ansiedade. O que ele vendia eram os artigos para costura como linhas, agulhas, carretéis, dedais, tesouras e toda a sorte de objetos que serviam para alinhavar as ideias e as roupas.
Passava muitos dias fora de casa percorrendo todas as roças e levando aquilo que a população desses lugares mais necessitava. Já havia muitos anos ele trabalhava com isso, antes houve o tempo em que viveu trabalhando nos Correios, época em que entregava cartas e pensava como ele poderia ganhar dinheiro e viajar ao mesmo tempo.
Sempre que o senhor Américo Prates voltava para casa ele já pensava, ao virar a curva da estrada, que teria que cumprir a promessa feita à sua esposa atual, embora a contragosto. A promessa era a de tirar a roupa ainda no quintal e só entrar em casa pelado. Sim, explico: a senhora esposa do caixeiro tinha certa mania de limpeza e a exigência se dava porque, segundo ela, o homem sempre trazia para dentro a poeira e a terra de todas as roças por onde ele havia passado.
 
 
 
 
Casado por 12 vezes, ele já não sabia mais o que fazer para suportar aquilo, algo que certamente para ele era um absurdo, um disparate, algo que um durão jamais poderia se submeter. Tentou em vão conversar com a esposa, mas a mulher era irredutível. O senhor Américo trabalhava duro, havia pouco comprara um carro, terno novo e até um perfume diferente do que usava na tentativa de agradar sua senhora. Ao contrario, a mulher enciumou-se. Sua mania de limpeza ficou até pior no rancho todo. Ele deu um vestido novo para ela, mas nada a fazia mudar de ideia, entrar em casa pelado era lei.
Quando a esposa deu com ele a sua última invenção foi a gota d’água. Na última viagem, que durou três dias, a esposa do senhor Américo Prates havia instalado fora de casa, na garagem, entre a cancela e o galinheiro, um chuveiro. Ali, segundo ela, ele deveria, ao sair do carro, não só se despir como também se banhar antes de entrar em casa.
Foi então que o homem ficou furioso. Gritou muito. Esbravejou aos céus! Disse que entraria em sua casa como quisesse e que não iria tomar banho do lado de fora como um cachorro sarnento e que se fosse de seu querer até mesmo com aquela roupa se deitaria e dormiria na cama, a mesma cama que ela. E disse mais, aos berros: “Caso não goste, que se vá. Caso não goste, procure homem mais limpo do que eu, pois mulher neste mundo não há de me faltar”.
 
 
A esposa, que sempre quis ser limpinha porque assim chamavam as mulheres de boa reputação, ficou triste. Ela pegou em cima do armário a sua antiga e pequena mala quadrada de couro, dobrou algumas roupas limpas para colocar dentro dela e decidiu ir-se da casa. Saiu com a mala em uma mão e um lenço na outra sem nada dizer.
Jamais conseguiu confessar ao marido que no fundo o que ela mais queria ao vê-lo entrar em casa nú, pelado, sem roupas, era que ele pudesse a desnudar também e levá-la para a cama, amá-la como nunca e deixar nela um cheiro de roça e de poeira do sertão. Para ela, a limpinha, tirar a própria roupa e esperar o marido entrar em casa nua seria uma afronta ao homem. Ele poderia pensar muitas coisas erradas, poderia pensar que ela estivera com um amante ou pior, ela tinha medo de ser expulsa por isso.
Dizem que o senhor Américo Prates, ao longo dos anos, ficou feio, sujo e velho. Nenhuma outra mulher voltou a querê-lo, pois pensavam que ele era um homem mau, afinal, com tantos casamentos acabou sozinho e sem ninguém. A limpinha ficou sozinha por um longo tempo, mas aprendeu a sujar as mãos na terra plantando flores no jardim.
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