Dois encontros, três Mulheres

Eram três mulheres. Eram três destinos que o acaso providenciou o encontro em um dia, numa rua qualquer, numa noite de solidão, pensamentos tristes e angústias profundas que cada uma guardava no fundo da alma.
Após sair do trabalho, numa sexta-feira como tantas outras, Cristina se perguntou o que poderia fazer para não se sentir só naquela noite, já que, havia pouco tempo, tinha sido traída e abandonada pelo seu namorado de “quase” três anos. Ela vivia um momento difícil de ruptura, de separação, de luto e uma mágoa grande lhe cortava o peito.  Isso a fez caminhar pela rua, sentia-se cansada após uma longa semana em que tentou se concentrar nas coisas mais rotineiras para sobreviver, para continuar.



Então, ali estava ela, olhando para o celular, subindo e descendo os dedos na tela touch screen de sua agenda lotada de pessoas conhecidas, mas poucos amigos. Nenhuma ligação completava, mas ao menos havia uma perspectiva, ela sabia que algo ia acontecer naquela noite. Havia saído de casa preparada para se entregar ao que viesse, sabia que não voltaria tão cedo para casa. Estava decidida a ter uma noite agradável, mas sem exageros, pois ainda se sentia fraca diante do mundo.
 
Em outro ponto da cidade, nas adjacências do local, Vanessa escolheu uma mesa e se sentou. Esperava passar ali alguns momentos de observação daquele povo estranho, peculiar, diferente, mas belo. Não sabia falar a língua local, entendia bem pouco do que aquelas bocas balbuciavam diante dela. Simplesmente se sentou, pediu uma taça de vinho que o lugar oferecia e esperou. Olhava para todos que passavam, olhava para todos que se sentavam e comiam e riam. Estava serena após uma semana de trabalho árduo, de confusões mentais em um quarto de hotel no famigerado bairro de Copacabana. Quiçá era tudo que sabia falar e mal sabia que tinha um horrível sotaque gringo ao fazê-lo: COoo Pa Ca BANA!!
Ao caminhar rumo à Lapa, local que Cristina supostamente encontraria pessoas conhecidas em um movimento que reuniria alguns artistas sem fama, ela escolheu outra rua segundos antes de continuar o caminho que vinha fazendo. Pensou: por aqui não posso seguir, não estou para tanto barulho, violência visual e auditiva! Mudou. Já na outra rua lutava com seus pensamentos internos, lutava para acalmar-se dentro de si mesma enquanto seguia pensando o que poderia ela fazer para passar as três horas que lhe separava do encontro com os amigos recentes logo mais.
Foi então que se virou e viu uma moça genuinamente diferente, mas com uma atitude que muito lhe parecia familiar. Era altiva, não se importava com os olhares alheios nem com os julgamentos de terceiros, que pela sua vaidade e soberba, acreditam ter algo de feio uma mulher estar sentada a sós em um bar a beber algo que lhe dê prazer. Pois bem, a sorte estava lançada, atravessou a rua e foi ter com ela.
Para surpresa de Vanessa, a abordagem soou tão sincera que ambas sorriram. Vanessa logo de cara disse: “I don’t speak portuguese”. Foi então que Cristina pensou: ok, aqui vou eu! Antes de aceitar o convite para se sentar à mesa, ela se certificou em uma pergunta simples se a outra mulher estava sozinha. Ambas estavam até aquele momento. A partir dele, não mais.

 


Ali um diálogo estranho, mas suave, deu início. Cristina com o seu enferrujado inglês dando conta de sua vida e de sua recente tristeza, Vanessa se solidarizando com aquela dor e contando um pouco de si, o que havia lhe trazido ao Brasil e principalmente dizendo que as pessoas são mesmo muito egoístas e só enxergam a si próprias.
Cristina contou da sua família, de seu pai falecido e de sua avó paterna que só tinha visto três vezes em toda sua vida. Vanessa contou da morte do irmão, da sua chefe muito brava e falaram também da crise na Europa, dos traços orientais de Vanessa, cuja mãe é filipina e o pai é alemão e da fisionomia galega de Cristina, que havia nascido no sertão de Minas Gerais. O irmão de uma tinha a mesma profissão da outra, a idade de ambas também era a mesma e assim, coincidências à parte, a conversa foi rolando para uma, duas, três taças de vinho, até que a hora chegou.
 
A noite estava só começando. Vanessa se entregou ao novo e ao por vir, Cristina se entregou ao inusitado de falar de si em outra língua e fazer-se entender, por mais difícil que pudesse parecer até aquele instante. O mais importante é que desafios são lançados e merecem ao menos uma tentativa, mais que isso, merecem ser vividos.
 
Foram para suas festas. Sim, festas, pois não havia somente uma, senão duas naquela noite. Viram e foram vistas, falaram e riram, dançaram muito menos do que pretendiam e muito mais do que aguentaram. Conheceram pessoas, reencontraram outras tantas. Se fizeram novamente encantadoras, ainda que uma noite fosse pouco. No taxi, sequer tiveram tempo de se despedir, pois as mãos cambaleantes e ébrias não conseguiram anotar nomes e nem telefones e muito menos facebook uma da outra.. Apenas sorriram, olharam-se e agradeceram pela noite que surpreendeu a ambas e que teve o poder de mostrar que é possível ser feliz de novo e sempre. É possível ser feliz nos momentos que jamais se imagina ser.
E antes que alguém me pergunte onde estaria a terceira mulher que é mencionada no início dessa história, ela só aparece no dia seguinte, quando Vanessa embarcou novamente para seu país, a Alemanha, e Cristina decidiu ir ao cinema. Ali, após a sessão, quando conversava com uma amiga, Marcela passou por elas com a sua bengala tateando e soando pelos obstáculos da rua. Sim, Marcela era cega.
Quando decidiram parar e se sentar, eis que esta mesma mulher retorna do mesmo modo em que foi. Isso causou estranhamento, mas não tanto quanto o fato de ela estar chorando.  Cristina então pensou: como assim uma mulher cega a chorar no meio da rua? O que teria acontecido com ela? No ímpeto que se seguiu levantou-se e abordou Marcela perguntando-lhe o que haveria passado e se ela precisava de ajuda. Nesse momento veio uma explosão: “Não! Não! Eu não preciso de ajuda, estou cansada de todos me perguntarem isso, todos só querem me ajudar porque ficam com pena de mim, não quero ajuda de ninguém, só quero que me tratem como igual”.



Diante daquela mulher, ainda jovem e tão aflita, Cristina precisou pensar rápido. Ela não poderia simplesmente virar-lhe as costas e deixá-la ali parada e presa em sua solidão. Decidiu convidar Marcela para se sentar, disse que estava com uma amiga e perguntou se ela também gostaria de ouvir uma história. Em seguida um suspiro veio de dentro de Marcela, que sorriu, assentiu com a cabeça e fez menção de seguir em direção à Cristina.
Marcela contou que estava cansada de sua família, de sua mãe que ouvia os patéticos programas de tv em um domingo à noite em alto volume, cansada de seu irmão caçula que a importunava sempre e também decepcionada com o rapaz que fingiu ser seu namorado e que depois a descartou como um lixo na porta do apartamento dele. Marcela precisava só de alguém que a pudesse ouvir, que pudesse fazer companhia naquela noite que ela já não podia mais suportar e que, para não enlouquecer, caminhava de um lado para o outro em uma mesma calçada de uma rua em Botafogo.
Seu problema congênito havia começado aos 11 anos e agora ela tinha que conviver com aquela limitação, mas ouvia atenta à história de Cristina e de seu encontro inusitado com Vanessa na noite anterior. Gostou de saber o que elas tinham feito e as aventuras que tinham vivido. Certamente que Marcela imaginou tudo aquilo, pois tinha um sorriso e um brilho no olhar que encantava. A cada novo fato ela se surpreendia como uma criança diante do mar.
E foi assim que terminou aquele final de semana. Marcela, aquela menina-moça-mulher, que jamais exerceu a profissão de jornalista devido sua limitação, estava agora animada a seguir adiante com o curso de computação para cegos. Mais que isso, ela mostrou que há prisões muito maiores e mais tristes do que a dor de um amor perdido. Ela seguiu seu caminho com aquela bengala barulhenta e Cristina fez o mesmo a caminho do ponto de ônibus. Seu pensamento era uma profunda gratidão à vida e às oportunidades que ela nos dá e que não vemos porque muitas vezes somos nada mais que cegos.
Engraçado como são as coisas, num dia isso, no outro aquilo, pessoas que passam por nós sem deixar o menor rastro, mas que marcam nossas lembranças para sempre em um momento crucial em que nós precisávamos ser marcados, precisávamos ser chacoalhados para a vida. E talvez, em um mundo tão grande e com tantas pessoas, um novo encontro seja realmente impossível, mas o que foi ali já bastou para ser eterno.


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