A censura de sentimentos

Hoje eu vinha para casa pensando numa coisa que me veio à cabeça: a censura de sentimentos. A sensação que tenho é que hoje não cabe mais os maus sentimentos, como se de uma hora para outra, assim do nada, eles de repente não mais existissem.
Hoje não nos dão mais o direito à tristeza, ao arrependimento, ao fracasso. Isso é perverso, é contra a essência da humanidade. Se até mesmo o filho do Homem chorou, sofreu e sentiu medo, porque não podemos mais ter esses sentimentos e assumi-los publicamente, já que, segundo certos preceitos, fomos feitos à sua imagem e semelhança?
Por todos os lados o que vejo é a completa negação do sofrimento, da dor, da angústia e do medo nas instâncias ditas modernas, em meio àqueles que se dizem cultos, bem nascidos, bem criados e educados. No mercado de trabalho não é permitido ter momentos de distração, de pouca produtividade, não se pode transparecer problemas pessoais, da ordem do privado. O mercado não pode arcar financeiramente com a tristeza, com momentos de melancolia, pois o rendimento cai e alguém passa a ganhar menos com nosso trabalho.
Muito pior é enfrentar tal censura entre os seus, entre aqueles que supostamente lhe dirigem amor e atenção. Como se ao abrir a boca para dizer algo que sim, ainda,  incomoda, ainda causa dor e aflição; fosse um pecado muito abominável que merecesse ser imediatamente calado, não sanado como um problema em que se busca solução com paciência, amor e simpatia, mas sim simplesmente calado, silenciado. Uma violência para com os corações atordoados, para as mentes que sofrem. Ainda que tais sofrimentos sejam pequenas coisas, mas estes corações muitas vezes precisam expressar tais pequenas para que elas não se tornem maiores. E maiores e maiores.
Não falar fará com que a dor, a desconfiança, ou medo desapareçam? Acabem? Desmaterializem no ar?
Não falar vai tirar isso de dentro de mim?
Não creio.
Então, por favor, não me peça para calar, por favor, não me julgue ou me ameace de solidão, porque dessa forma, mesmo ao teu lado me sinto sozinha.
Temos visto a proibição de protestos, a negação do que não é perfeito, do que não é cor de rosa, como se na vida só houvessem alegrias.. ou pior, como se na vida, só tivéssemos a obrigação de dividir felicidade. Já o sofrimento, a dor, a angústia e o medo é nossa obrigação guardar para nós mesmos.
Pois eu digo que não posso. NÃO POSSO!
Aqui dentro não vai ter tanto espaço para o medo do fracasso, medo do desconhecido..
Medo da traição.
De não ser boa o suficiente aos olhos do outro, do chefe, dos amigos, da família, do companheiro (a), dos conhecidos e até desconhecidos. Precisamos dividir também isso com alguém, precisamos dividir, compartilhar. Não sou só alegrias, não sou só linda e sexy, não sou só sucesso todo o tempo. Não posso ser..

O mundo está clamando por uma cultura completamente distinta disso. Está clamando por uma postura mais humana, mais próxima da realidade. Eu estou clamando por ouvidos, por sorrisos, clamo por paciência e simpatia. Se somos tantas coisas, porque não posso ser o meu mais íntimo eu, o feio e o belo, o triste e o feroz, o amável e o alegre?

 

 

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