Minhas memórias….

Em 23 de maio de 2006, uma jovem prestes a se formar na profissão de jornalista, escreve:

Ontem eu assisti ao filme Jardineiro Fiel (2005), de Fernando Meireles. Há muito tempo eu queria ver esse filme por que vc havia me dito que eu me parecia muito com a personagem do filme: Tessa. Não foi a primeira vez que alguém me disse isso e eu confesso que me emocionei. Já no início do filme eu percebi a semelhança do qual as pessoas falavam, um jeito de ser impetuoso e só meu, como que um enigma a ser desvendado. Como pode ser tão doce e feroz ao mesmo tempo? Gostei da frase que ela disse: ” vc pode me aprender”. Acho que sou mesmo assim.
 
Chorei. Por três vezes ao longo do filme, mais ainda depois que ele havia terminado, quando fui dormir comecei a pensar que há muitas coisas erradas por aí, vemos todos os dias alguma coisa que nos indigna, que nos faz pensar que merda, afinal, estamos fazendo aqui. Certezas e incertezas… no meio de certezas incertas eu me angustio. Chorei.
Não sabia muito ao certo o por quê, não podemos temer, seja lá o que for, não podemos temer. A morte, quando se está fazendo justiça, não pode nos amedrontar jamais, pois há muito para ser feito, há uma urgência grande em se pensar estratégias, em descortinar os olhos, em desmascarar a falsa verdade midiática.
O amor nos move, o amor pela vida, o amor pelo ser humano e toda sua capacidade de luta enquanto houver tanta dor e sofrimento. Talvez tenha sido esse o motivo de meu choro consternado, da minha certeza de que temos que enfrentar o mundo sendo bandidos inteligentes.
 
No domingo estive no Palácio das Artes a convite de meu amigo Valdir para ver a abertura da exposição sobre o Guimarães Rosa (foto), um desfile de moda e um coquetel. Imaginei que seria tranqüilo de chegar e entrar, conversar com algumas pessoas e ir embora. Mas lá chegando me deparei com uma multidão muito bem vestida, com suas plumas e paetês, com seus cargos e patentes à amostra. No meio deles percebi, meio insignificantes, moradores de rua das adjacências do edifício maleta. Velhos conhecidos meus, talvez nunca tenham me visto. Pois bem, estavam ali. Pediam alguns trocados para cineastas, jornalistas, secretários de cultura, pessoas penetras. Faziam o papel deles de pedir enquanto podiam, pois as pessoas ainda se encontravam na calçada, ambiente que ainda os pertence, já que lá dentro do Palácio das Artes eles não ousariam entrar, mesmo a entrada sendo franca como dizia a informação do boca a boca. Incomodavam certamente, aquele cheiro de morrinha impregnando o ar de perfumes franceses, aquelas sujas mãos estendidas… Certamente incomodava.
Lá dentro falavam de sertão, de sertanejo, de sol quente, de fome, de luta pela sobrevivência.. Será? Não. Falavam de moda, de consumo, de área vip, de quem está dentro e quem está fora… Guimarães mesmo eu não vi, será que passou ao meu lado despercebido? Será que estava a observar?
Sua temática é tão atual que o faz ser homenageado hoje após 50 anos de publicação de seu livro. A única coisa que me fez lembrar de Guimarães, da minha terra retratada por ele, do meu sol castigado e da poeira seca na boca foi o empacar de jumentos à beira da passarela… Onde já se viu jumentos em passarela? Onde estava o Ronaldo Fraga com a cabeça? Provavelmente muito longe do sertão.
 
Sertão de gente explorada, sertão de gente sem água, sertão que nunca ouviu falar em literatura e moda, mas que sabe guardar muito bem seus segredos. Pergunte a um jumento, talvez ele lhe conte…
 
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2 comentários sobre “Minhas memórias….

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