Q UA R T O D E D E S P E J O

Trechos do Diário de Carolina Maria de Jesus

Estes são trechos do diário de Carolina
Maria de Jesus, moradora da favela do Canindé,
em São Paulo, catadora de lixo e mãe de três
filhos. Transcrevemos suas palavras letra por letra,
desconsiderando o fato de que ela escreve fora da
norma culta e no ano de 1955, antes da Reforma
Ortográfica.

15 de julho de 1955
Aniversário de minha filha Vera Eunice.
Eu pretendia comprar um par de sapatos para ela.
Mas o custo dos gêneros alimenticios nos impede
a realização dos nossos desejos. Atualmente somos
escravos do custo de vida. Eu achei um par de sapatos
no lixo, lavei e remendei para ela calçar.
Eu não tinha um tostão para comprar pão.
Então eu lavei 3 litros e troquei com o Arnaldo.
Êle fi cou com os litros e deu-me pão. Fui receber o
dinheiro do papel. Recebi em 65 cruzeiros. Comprei
20 de carne. 1 quilo de toucinho e 1 quilo de açucar
e sis cruzeiros de queijo. E o dinheiro acabou-se.
Passei o dia indisposta. Percebi que estava
resfriada. A noite o peito doia-me. Comecei tussir.
Resolvi não sair a noite para catar papel. Procurei
meu fi lho João José. Êle estava na rua Felisberto de
Carvalho, perto do mercadinho. O onibus atirou um
garoto na calçada e a turba afl uiu-se. Êle estava no
nucleo. Dei-lhe uns tapas e em cinco minutos êle
chegou em casa.
Ablui as crianças, aleitei-as e ablui-me e
aleitei-me. Esperei até as 11 horas, um certo alguem.
Êle não veio. Tomei um melhoral e deitei-me
novamente. Quando despertei o astro rei deslizava no
espaço. A minha filha Vera Eunice dizia: – Vai buscar
água mamãe!

17 de julho de 1955
Domingo. Um dia maravilhoso. O céu azul
sem nuvem. O sol está tepido. Deixei o leito as 6,30.
Fui buscar agua. Fiz café. Tendo só um pedaço de
pão e 3 cruzeiros. Dei um pedaço a cada um, puis
feijão no fogo que ganhei ontem do Centro Espirita
da Rua Vergueiro 103. Fui lavar minhas roupas.
Quando retornei do rio o feijão estava cosido. Os
fi lhos pediram pão. Dei os 3 cruzeiros ao João José
para ir comprar pão. Hoje é a Nair Mathias quem
começou impricar com os meus fi lhos. A Silvia e o
espôso já iniciaram o espetaculo ao ar livre. Êle está
lhe espancando. E eu estou revoltada com o que as
crianças presenciam. Ouvem palavras de baixo calão.
Oh! se eu pudesse mudar daqui para um nucleo mais
decente.
Fui na D. Florela pedir um dente de alho. E
fui na D. Analia. E recebi o que esperava:
— Não tenho!
Fui torcer as minhas roupas. A D. Aparecida
perguntou-me:
— A senhora está gravida?
— Não senhora — respondi gentilmente.
E lhe chinguei interiormente. Se estou gravida
não é de sua conta. Tenho pavor destas mulheres da
favela. Tudo quer saber! A lingua delas é como os pés
de galinha. Tudo espalha. Está circulando rumor que
eu estou gravida! E eu, não sabia!
Saí a noite, e fui catar papel. Quando eu
passava perto do campo do São Paulo, varias pessoas
saiam do campo. Todas branca, só um preto. E o preto
começou insultar-me:
— Vai catar papel, minha tia? Olha o buraco,
minha tia.
Eu estava indisposta. Com vontade de deitar.
Mas, prossegui. Encontrei varias pessoas amigas
e parava para falar. Quando eu subia a Avenida
Tiradentes encontrei umas senhoras. Uma perguntoume:
— Sarou as pernas?
Depois que operei, fi quei bôa, graças a Deus.
E até pude dançar no Carnaval, com minha fantasia de
penas. Quem operou-me foi o Dr. José Torres Netto.
Bom médico. E falamos de politicos. Quando uma
senhora perguntou-me o que acho do Carlos Lacerda,
respondi concientemente:
— Muito inteligente. Mas não tem iducação.
É um politico de cortiço. Que gosta de intriga. Um
agitador.
Uma senhora disse que foi pena! A bala que
pegou o major podia acertar no Carlos Lacerda.
— Mas o seu dia… chegará — comentou
outra.
Varias pessoas afluiram-se. Eu, era o alvo da
atenções. Fiquei apreensiva, porque eu estava catando
papel, andrajosa (…) Depois, não mais quiz falar com
ninguém, porque precisava catar papel. Precisava de
dinheiro. Eu não tinha dinheiro em casa para comprar
pão. Trabalhei até as 11,30. Quando cheguei em casa
era 24 horas. Esquentei a comida, dei para a Vera
Eunice, jantei e deite-me. Quando despertei, os raios
solares penetrava pelas frestas do barracão.

Carolina Maria de Jesus

Fonte: Jornal PlásticoBolha dos estudantes de Letras da PUC- Rj

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