Nunca saberemos.

Uma cena corriqueira em nossos dias atuais.
Uma noite.
Um suicídio.
Numa rodovia movimentada de uma grande capital, um jovem de 27 anos encosta o seu carro no acostamento, ainda com faróis ligados, pensa por alguns instantes em variadas e infinitas coisas. Ou não. Simplesmente pensa em si mesmo, ou nas suas últimas palavras com o seu vizinho ontem à noite, ou em como foi desacreditado por amigos e parentes por ainda não ter um bom emprego, por ainda não ter sua própria casa ou por ainda não ser totalmente independente.
Talvez esse jovem pensasse simplesmente na dor de um amor perdido. Talvez alguma coisa para ele tenha faltado e por causa disso, algo se quebrou, alguma coisa se rompeu entre o fino e tênue fio que ligava esse jovem à sua conexão interna. Um dano irreparável para ele, uma dor profunda que o faria carregar consigo alguma coisa para sempre, pelo resto de sua vida. Porém, isso seria algo tão pesado e enorme que ele julgou não ser capaz de carregar. E para que carregaria? Para demonstrar temor a Deus? Para dizer aos outros que ainda assim não desistiria? Os outros, sempre os outros. Para ver ao fim de uma conclusão, após se passados 40 anos, que tudo não passou de ilusão? Para ter um dia a dúvida se não teria sido muito melhor e sensato acabar com tudo ali mesmo, naquele exato momento?
Será que alguma coisa teria sido capaz de mudar o rumo dos fatos?

Agora tudo não passa de um passado tenebroso. Talvez ao sair de casa naquele dia ele nem mesmo pudesse suspeitar de qualquer coisa. Um verdadeiro circo a vida que gira em torno de nós. A nossa memória, ela mesma, pode nos pregar uma peça, pode nos fazer esquecer ou lembrar, no tempo de um vulto, tudo aquilo que queremos recordar ou enterrar para sempre (respectivamente). Ela é a atração principal dessa picadeiro, mas se ela começa a levar para si todos os holofotes, sem se preocupar com o conjunto da lona, infelizmente acredito que a fama não vai lhe fazer muito bem. Há quanto tempo estaria o jovem ao volante de seu carro até aquele instante? Que música ouvia no som do automóvel ou no som de sua mente? Qual o rosto que lhe veio aos olhos no momento em que não mais se importou em ver a rodovia à sua frente? Há quanto tempo uma lágrima não caía daqueles olhos? Um dia? Algumas horas? Um instante atrás ou quem sabe um ano?

O mais estranho de tudo isso é que, no sofá da sala, olho para a televisão, que consegue me contar o que esse jovem fez de uma maneira tão rápida e imagética, que até hoje penso nisso. Acredito que na TV tudo não passou de exatos 30 segundos. A imagem de um carro fazendo o retorno da mão em que dirigia, para voltar-se contra os outros carros que vinham logo atrás. Segue por exatos 4 KM sem se desviar de nenhum obstáculo À sua frente, deixando para trás motoristas atônitos e encontrando pela frente uma enorme carreta que esmagaria por completo aquela estrutura de metal, ferro e borracha.

Queria ao menos saber seu nome, saber a rua onde cresceu e morou, qual era o seu brinquedo favorito, qual era sua cor predileta, qual poesia fez seu peito se encher de ar um dia, para quem ele diria “sim” jurando amor diante de alguma instituição de representatividade, qual lugar do mundo sonhava em conhecer. Queria ao menos saber se ele já dormiu no balanço de uma rede ou se já deixou o picolé cair no chão antes mesmo de dar a primeira mordida. Eu só queria dizer a ele que qualquer que fosse a dor de seu peito daquele instante, sempre poderemos chorar, sempre poderemos rezar, sempre haverá a solidão de um quarto escuro, sempre haverá os livros de Paulo Mendes Campos, sempre haverá o filhote de passarinho que cai do ninho e não consegue mais voltar, sempre haverá pessoas melhores que nós mesmos assim como sempre haverá aquelas que são piores. Queria dizer a ele que ainda, e por muito tempo, seremos apenas humanos.

Anúncios

3 comentários sobre “Nunca saberemos.

  1. Cristiane disse:

    A-do-rei as profundas palavras e mais ainda o vídeo. ooooooooootemos!!Acho que muitas pessoas já se perguntaram ou já se viram alguma vez na vida numa situação como a descrita.O vídeo? Ah! é lindo demais, maravilhoso, mas senti uma certa tristeza. Realmente nos faz pensar na vida, no mundo que estamos vivendo, e o que vamos fazer com o nosso futuro, enfim…

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s