Algumas histórias da Bahia


Dizem que a Bahia, um pouco mais para baixo de Salvador, tem três divisões territoriais imaginárias: baixo sul, médio sul e extremo sul. Digamos que eu tenha percorrido um pouco dessa última. Saímos de Montes Claros no dia 3 de Janeiro e nove horas depois de viagem chegamos a Itabuna. Sem grandes atrativos para uma mineira ávida pelo mar há pelo menos uns cinco anos, Itabuna passou batido, com exceção de algo marcante, nunca antes visto. As camisinhas de garrafas de cerveja, que servem para conservar a temperatura do líquido, possuem um dispositivo tecnológico muito útil que a pessoa aciona puxando-o para cima indicando que a cerveja acabou. Fantástico!
Dois dias intermináveis se passaram até que finalmente chegamos em Mar e Sol, um condomínio localizado a 20 km depois de Ilhéus e a 60 km de Itacaré. A casa do londrino amigo, Peter, era bastante aconchegante. Uma convivência amigável se estabeleceu, inclusive com os morcegos, também moradores da casa. A minha ansiedade então se fez calada no momento em que pude, enfim verificar toda aquela exuberância de mar, de praia, de extensão e de energia. Mar e Sol é vizinho de outras comunidades e seguindo pela praia dá para encontrar muitas surpresas, naturalmente maravilhosas.

Em Ilhéus peguei uma pena vermelha na Casa de Cultura de Jorge Amado, a casa onde o escritor nasceu e morou se tornou uma espécie de museu aberto a visitações. Tirei fotografia com o próprio no Vesúvio, um restaurante antigo que fica bem na praça central da cidade, de frente para a igreja de São Sebastião, de onde Jorge Amado via o mar e se inspirava para escrever suas histórias, como a de Gabriela e Nacib. O restaurante foi locação da novela, era a casa da Sônia Braga no papel de canela. E estrutura original já passou por algumas mudanças, mas o lugarzinho do Jorge está lá guardado pela sua estátua. Nesse mesmo dia também fui ao parque de diversões. A Montanha Russa e o Polvo me deram crise de riso: Zé Loloooota!!!
Mar e Sol, o nome da praia, resume bem o que se tem para fazer por lá. Era uma vida besta, meu Deus! Acordar, se lambuzar e ir ter com ele, o Sol. Claro que era uma união de tudo, de vários elementos que ali estavam presentes nos 22Km de praia. Necessidade de respirar fundo! À tarde, na disputada rede, ficava pensando na vida dos Guaiamuns, que se eles quisessem, um dia, poderiam se juntar e atacar a mim, ali, deitada na areia ao invés de se esconder no buraco cavado por eles. Afinal, eu estava ali invadindo o espaço deles e atrapalhando o seu cavar, o seu ir e vir. Bicho engraçado, de olhos arregalados. Os gringos, de tão brancos, parecem Guaiamuns, penso eu!
E chegou o tempo da Capoeira. De 8 a 13 de Janeiro o Cordão de Ouro alegrou um pouco mais Mar e Sol. Conheci gente do mundo todo, que pouco podiam acreditar no meu inglês de cinema. Bom exercício! Bom também foi o samba de roda que dancei de saia amarrada na cintura. Subiu poeira! Sou de Minas Gerais sim sinhô! Engraçado como isso acontece. Depois de algum tempo convivendo com os participantes do encontro, dizia ao me despedir: Até um dia!
Mais à frente, depois da Praia do Capoeirando, tinha o rio, um encontro delicioso. Por lá caminhei muitas vezes. Pensei de chegar até Itacaré pela praia, mas soube que era um tanto quanto impossível. Estive lá por outros meios. Vi um cortejo de reis na noite do dia 6 de janeiro e me animei a dançar no “Quintal” depois, com os amigos que fiz de Brasília, um grupo de atores. Infelizmente é bem possível que não vá saber mais nada na vida dessas pessoas.
Fui a Itacaré durante o dia também. Na Praia da Tiririca encontrei amigos de Bh e enquanto via o surf no mar homenageamos Bob Marley. A Praia da Costa, de areias negras. A Praia da Ribeira, uma falésia de tirar o chapéu. Vou falar disso logo mais.
Por ora, me recordo de mais algumas impressões enquanto acontecia um ligeiro momento de solidão em Arraial D’ajuda. Nesse momento me lembro que estive também por Olivença, Vila de Santo André, Sta Cruz de Cabrália, Porto Seguro e agora ainda me vejo sentada naquele restaurante, esperando meu primo Bernardo chegar para sairmos borboleteando pela noite desse arraial. Algumas poucas vezes ouvi música boa. Muitas foram as pessoas que conheci, entre baianos e não baianos, entre pessoas legais e outras nem tanto. Praias lindas! Na Ribeira de Itacaré vi um azul de mar selvagem que nunca antes havia visto, realmente inacreditável.
Vi que alguns pássaros, pouco antes do crepúsculo, vão até a praia reverenciar o mar, o vento e a divina criação. Ali brincam de voar para mar adentro, mas logo que pousam na areia e a onda os ameaça molhar, voltam-se para o continente, certos de seus lugares no mundo. Isso me fez pensar na perfeição da natureza. Não vi isso só uma vez, mas vi sempre no mesmo horário.
Como no dia que andei pela praia da Serra Grande quase no cair do Sol, quando ele já estava detrás dos coqueiros, e eu seguia a cantar e rodopiar a canga amarela conforme o vento. O som das ondas, o vento forte e a sensação de solitude foi infinitamente boa. Ninguém à minha frente, ninguém às minas costas. Somente eu e alguns gatos pingados ao longe, que mais pareciam palitinhos de dente. Era meu horário preferido. Horário de saudar todos os orixás e cantar para Iemanjá – ê Janaína! Odoiá minha mãe! Suas bênçãos vinham parar nos meus pés, vinham banha-los de beleza e mistério.
Lembro-me que enquanto escrevia isso em meu caderninho, ao lado, um moço cabeludo tocava violão, amêndoas caíam da árvore e o vento soprava frio e bastante leve, resquício da chuva que nos abatera por todo aquele dia. Ao passar novamente pela Passarela do Álcool naquela manhã, me lembrei das falsas argentinas que um dia fui com a Fabíola, há 10 anos atrás. Promessas de um dia retornarmos juntas e lá estava eu novamente, em Arraial. A balsa é a mesma, as ruelas também.
E não é que encontro Ângelo Rafael em plena Brodway? Inacreditável! Há 10 anos encontrava seu irmão Lecy na passarela. Naquele dia Ângelo foi o ar da graça da noite. Próxima parada: Trancoso.
Bom, Praia do Espelho, para ser mais exata! O desenho que as ondas fazem ao deixar folhas secas na areia parece as montanhas de Minas. Falésias que datam o planeta, mata fechada, pássaros e o quitoco soltando a imaginação. Em Trancoso foi onde mais vi gente conhecida. O céu que pude ver do “Quadrado” me intimou a ter uma vida feliz. O cenário da Praia do Espelho fez refletir nos meus olhos uma beleza que vou levar comigo ao longo do ano inteiro, um gás a mais para minhas conquistas, ações, concretizações. Feliz brasileirando!
Já no Espírito Santo, Marataízes foi a última paragem do litoral, “Sorria, até outro dia Bahia”. Chegamos à noite e eu só pensava em sonhar. Na manhã seguinte pude retomar a caminhada à beira mar, porém ali precisei caminhar muito mais até voltar ao meu convívio com os Guaiamuns, só eu e os Guaiamuns. Aqui o mar está querendo retornar o seu lugar de origem, natural de direito. A humanidade há alguns anos ocupou boa parte de seu território de praia onde a maré podia seguir livre entre altas e baixas. Penso: será que esta é uma cidade das que estão fadadas a virar Atlântida? Bom, deixemos isso com o Atlântico.
Quase um mês sem notícias do mundo exterior, sem noticiários de tv ou rádio, sem email, celular, calendário ou qualquer outra forma de marcar o tempo, estou de volta. Viva a vida!!
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