Preconceito Musical? Democracia? Educação?

Músicos presentes no Conexão Vivo questionam tudo isso e muito mais.Conhecido por revelar artistas novos da cena musical brasileira, promovendo intercâmbios entre os já consagrados e aqueles recém-chegados, o Conexão VIVO ocupou o Parque Municipal de Belo Horizonte na semana de 24 de abril a 4 de maio. Ao todo foram mais de 50 atrações e, dos 40 artistas mineiros que se apresentaram, nomes como o de Fernanda Takai, Renato Teixeira e Gilvan de Oliveira deixaram o espaço lotado de um público fiel e orgulhoso. No meio desse público encontrei o músico e compositor Mestre Jonas, que ressaltou o fator inovador desta edição no sentido de trazer mais artistas de fora do estado. “Isso é muito bom, dar espaço para o intercâmbio faz com que o nome conexão tenha sentido”, afirma. Sua opinião sobre o formato do evento é clara quanto ao caráter de festival, quando as apresentações são rápidas e muitas vezes fugazes. “O público, ao que tudo indica, não retém muito a informação, se o cara não tiver um show marcante não faz a cabeça. Eu prefiro que a moçada escute a música”.

Mestre Jonas, que tem o estilo jazz e do afro-beat, é um dos fundadores do projeto Samba da Madrugada, proposta de levar samba aos boêmios músicos e sambistas da cidade, de 2h da madrugada às 6h da manhã. Ele acredita que em Minas o cenário musical está cada vez melhor. “Há muita diversidade e os artistas agora estão mais maduros e conscientes, com mais informações e não há mais aquele romantismo do sucesso, ninguém espera mais vender milhões de discos, essa pretensão não mais existe!”, declara. Para Mestre Jonas, o mercado mudou e a forma de divulgação também. Hoje é necessário construir a cena musical, onde o trabalho em parceria fala mais alto. O músico ainda arrisca um palpite: “o cd vai deixar de existir e já estamos discutindo novos suportes para a música, como a internet”.

Enquanto no palco Carlinhos Ferreira fazia a sua “Percuciência”, pensava eu que os novos suportes ainda não significam democracia completa, ainda temos poucos brasileiros com acesso à banda larga, necessária para fazer alguns tipos de download, como músicas e vídeos. Crítico da forma como é organizado o evento, o artista plástico João Maciel diz que o nome conexão é muito subjetivo pois, para ele, conexão acontece em qualquer lugar e a qualquer hora. “O problema é quando essa palavra sugere o conceito de interação, isso já é outra história! Aqui a idéia tem a ver com seleção, com segregação. Que tipo de pessoas a empresa de telefonia quer conectar?”, indaga o artista. A crítica tem origem no fato de o evento Conexão VIVO cobrar ingresso para a entrada nos shows. O que, na visão dele, não democratiza o acesso à música. “Vejo aqui uma prestação de contas sendo feita através da transferência da isenção de impostos de leis de incentivo, porém o parque é um lugar público e ninguém pode restringir o acesso a ele, ainda mais nesses moldes da isenção de impostos”. – Sob esse ponto de vista não podemos negar que é uma relação no mínimo estranha -.

O Conexão VIVO aconteceu no Parque que é patrimônio da cidade, entretanto ele não foi para todos, mas reuniu os mais diferentes tipos de pessoas e tribos. João ainda dispara: “Na sociedade de consumo, as pessoas consomem até aquele ideal do que devem ser. Acredito que esteja havendo uma lavagem cerebral onde muitos concordam com tudo e assim nos tornamos gado, ovelhas”. João Maciel é um artista que se considera de fora do mercado convencional existente. Ele expõe suas obras em galerias de arte e reconhece que mesmo esses espaços são inevitavelmente restritos. “O universo mineiro é pequeno para todos os artistas que Minas possui”.

A cantora Janaína Moreno, que também foi prestigiar amigos e assistir seus ídolos no Conexão VIVO, acredita que o evento reúne gêneros distintos de música universalista e o retorno do público para quem se apresenta é positivo. “Talvez no cenário musical esteja faltando um pouco de união. Acredito que a troca é importante entre os artistas”. Sobre a lógica de funcionamento do mercado fonográfico, a intérprete diz que “é necessário improvisar, pois o mercado é cruel; o artista cai na graça dele ou não cai e quem faz essa escolha é a mídia. O público tem um papel menor nessa decisão”.

Pensando sobre isso fico me perguntando se essa relação acontece devido à falta de formação musical nas escolas, que pode vir a formar apreciadores não tanto pautados pela moda e pela maioria, mas sim pela real maturidade de escolha. “Ainda falamos para um público alienado onde só acredita que um determinado grupo ou músico é bom depois que a mídia e seus críticos disseram que é”, desabafa Janaína, uma das vocalistas do grupo Samba da Madrugada.

Dia do Trabalho

É feriado do trabalhador e dia de hip hop no Conexão. A lotação do espaço deixou claro que quanto mais arrocho salarial, mais as pessoas se identificam com o verbo cantado dos rappers e biboys. O suingue do show do Berimbrown foi marcado pela participação de Gerson King Combo, indivíduo performático e cheio de carisma que atraiu a atenção até dos passantes mais dispersos. Mas quem surpreendeu mesmo foi BNegão, que entrou no palco duas vezes (fez participação com Berimbrown e Gerson) e ainda teve fôlego para um show de duas horas e 10 min. Ele e sua banda, os Seletores de Freqüência levaram toda a criatividade musical para as intervenções e até mesmo quem não sabia as letras das músicas moveu o corpo junto com o som de metais afinados. Lúdico!

Quem não agradou muito foi Renegado, que de “renegado” só tem o nome. Isso na opinião de qualquer um que avaliar a quantidade de publicidade que vem sendo feita sob seu nome, além do perfil comercial e caricaturado que sua carreira solo vem assumindo. “Uma clara cópia do Marcelo D2”, diz o estudante do curso de geografia da UFMG, Diogo Oliveira. A idéia de movimento social através da música, que era sugerida pelo grupo de origem do Renegado, o N.U.C – Negros da Unidade Consciente – talvez fosse algo melhor do que essa nova roupagem.

Já a Banda Concreto fundou o novo lema: “abaixo o preconceito musical!” Levando releituras de Roberto Carlos e Elis Regina, a banda de rock pesado, que já possui 15 anos de estrada, não esconde gostar de estilos variados como o samba. Oferecendo um mix de vocal melódico, com som pesado e blues, a Concreto propõe mesmo misturar melodias. E parece que a receita tem dado certo, há fãs que acompanham a banda desde 1986, época da primeira formação, quando a referência de sons como The Purple e Black Sabah falavam mais forte. “Nossa base ainda é essa, mas hoje é necessário reciclar, quem escuta quer coisa bem feita”, diz Marcelo Loss, vocalista.

Conectados ou não, música sempre soa bem aos ouvidos. Ela sim é a grande dona da festa! Ainda bem que os músicos mineiros e o público, em sua maioria, conseguiram entrar na mesma sintonia da diversidade cultural para questionar, inclusive, a maneira como ela vem sendo feita, divulgada e acessada nos dias de hoje, quando o vinil se tornou artigo de luxo em feiras de troca, o CD se banalizou e a internet se traduz como aliada da cultura ainda pouco conquistada.
Para os músicos, a tendência empresarial de patrocínio cultural tem sido oportuna. Graças aos recursos viabilizados por grandes empresas, carreiras artísticas estão sendo alavancadas. Ao que tudo indica, patrocinar eventos musicais desse porte é a grande sacada comercial de empresas, pois com isso podem alcançar sua aceitação no mercado de clientes. Nessa “conexão” de interesses, só o público não sai ganhando, pois tem que pagar ingresso.

 

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